Por um Sentido na Vida (Redação para Aula)
Para o homem religioso, os dogmas, mandamentos e crenças impostos lhe conferiam sentido à vida, livrando-o da angústia da escolha. Para o homem contemporâneo, no entanto, para o qual deus está morto, a vida sob as sombras ilusórias dos dogmas e crenças não é mais satisfatória. O homem se torna cego relativamente a essas ilusões, dá conta da sua liberdade e passa a se perguntar sobre o sentido da vida. Ele precisa aprender a viver novamente, como os cegos do “Ensaio sobre a Cegueira” de Saramago.
De início, nessa primeira liberdade, em que se é livre da religião, os homens tendem a buscar a satisfação de todos os seus desejos, sem mais se sentirem restritos pelo bem ou pelo mal. Sucumbem ao canto das sereias, como alguns dos viajantes companheiros de Ulisses, do épico de Homero..
Alguns, como Ulisses, percebem que a satisfação imediata dos desejos enfrenta o sério problema da insaciabilidade dos desejos, que também aprisiona e aniquila a individualidade. Parece ser preciso conquistar uma segunda liberdade, aquela em que se é livre de si mesmo, dos próprios desejos, para descobrir ou inventar um sentido para a vida.
Após a constatação da necessidade dessa segunda liberdade, há uma tendência a um refluxo da superação do bem e do mal. O homem, que havia superado a imposição de um sistema de valores dogmáticos, passa a querer conceber seu próprio sistema de valoração do que é certo e errado ou tenta descobrir um sistema que julga absoluto, universal e racional. Ele busca uma auto-imposição que interdite seus desejos. Na ética de Kant, por exemplo, se verifica no imperativo categórico essa necessidade de autonomia do sujeito, a qual fica também bem representada quando Ulisses pede para ser amarrado ao mastro para interditar seu desejo de ir de encontro às Sereias ou quando os cegos de Saramago precisam reaprender autonomamente a viver.
Esse refluxo de auto-imposição de valores e interdição de desejos, no entanto, não deixa de ser um desejo do indíviduo de inventar novas sombras ilusórias para se confortar. A interdição de desejos também é um desejo e esse paradoxo mostra a inconveniência de se querer a interdição. Alguns poucos seres humanos percebem esse paradoxo, não conseguem se iludir ou são fortes demais para se deixar limitar por auto-imposições. É talvez o caso, por exemplo, de Buda, que renunciou à sua vida de ascetismo e interdição para supostamente atingir o Nirvana, ou do conceito de Übermensch de Nietzsche. Esses poucos são fortes o suficiente para viver sem convicções sobre o sentido da vida e sem divisões bipolares que limitam a unidade ilimitada de seus potenciais.
A intransferível tarefa do homem de dar sentido à vida talvez seja fútil. Talvez a tarefa mais relevante seja perceber e superar o desejo de dar um sentido que não existe.