Autonomia na Ética (Redação para Aula)
O texto do professor Renato Janine Ribeiro comenta o livro “Os Dez Mandamentos da Ética”, de Gabriel Chalita, levantando a interessante e paradoxal questão da autonomia do indivíduo em decisões éticas. Ações heterônomas desses indivíduos, decorrentes da aplicação automática dos mandamentos desse livro, assim como de qualquer outro código de ética, possuiriam valor ético?
Com notável influência kantiana, o professor Ribeiro procura responder que apenas as ações decorrentes de uma reflexão autônoma não-imposta sobre o bem e o mal, sobre o certo e o errado, têm valor. Não basta que uma ação esteja em conformidade com o dever; para ser considerada boa, ela precisa ter sido feita por dever. Sua predileção pela exclusividade da autonomia na ética parece ter estreita relação com outro conceito por ele apresentado: a opacidade do mundo.
A complexidade e o caos do mundo contemporâneo torna difícil para um indivíduo a previsão das conseqüências de suas ações. O futuro é portanto opaco. Isso torna indesejáveis avaliações éticas baseadas em resultados, sendo preferível avaliar uma ação por sua intenção. Como uma ação heterônoma é imposta e portanto desprovida de intenção, não poderia ter valor ético. Decorre então da opacidade que a autonomia seria necessária à Ética.
No entanto, a autonomia também possui alguns inconvenientes práticos. Como as pessoas possuem culturas, ambientes e origens diferentes, suas reflexões provavelmente resultarão, por exemplo, em diferentes valores éticos para uma mesma ação. Não há garantia, portanto, que um grupo de pessoas refletindo autonomamente atinja um sistema único de valores, o qual seria útil para que o grupo convivesse em harmonia. A falta de imposição de uma conduta também condena as pessoas à uma liberdade de escolha que provoca uma angústia que nem sempre é suportada.
Há ainda uma dificuldade de se avaliar uma ação simplesmente pela sua intenção, que advém da impossibilidade de se conhecer as reais intenções de uma pessoa ou mesmo de si próprio, uma vez que os seres humanos são bastante competentes em interpretar fatos e ações da maneira mais lhes convém, enganando-se e criando suas próprias sombras pra tentar tornar suas cavernas platônicas mais confortáveis.
A questão da imposição de um código ético se apresenta então como um dilema, uma vez que tanto a imposição quanto a autonomia do indivíduo apresentam inconvenientes que tornam difícil a escolha. Uma possibilidade de solução para o dilema seria o estabelecimento de escopos de validade para códigos impostos, o que garante a autonomia do indivíduo fora do escopo, ou a elaboração de códigos flexíveis, que permitam a autonomia limitada por restrições.
Uma segunda possibilidade de solução advém da constatação de que toda a discussão para definir as ações como boas ou ruins advém do desejo do ser humano de se sentir bom e poderoso. Uma vez superado esse desejo, o ser humano estaria forte o suficiente para viver uma existência unificada: não bipolarmente dividida entre bem e mal, mas sim além destes.