Metafísica e Ética no Caso Gugu
O “Caso Gugu”, em que imagens de uma falsa entrevista com membros do PCC foram veiculadas no programa de TV Domingo Legal, suscitou diversas discussões éticas na imprensa, as quais, geralmente partindo do pressuposto de que a falsidade é ruim, incorreta e anti-ética, tentaram determinar formas de punição ou mecanismos para censura ou melhoria da qualidade da programação na TV. Apesar do caso incitar uma ação prática, ele também se mostra útil como motivação para uma discussão mais teórica, de metafísica e ética.
A falsidade, irrealidade, da entrevista remete à questão, que é fundamental na metafísica, do que seria real. Se a falsidade da entrevista é indiscutível, a realidade de outras notícias, que não chegam a causar tanta polêmica ética, pode ser questionada. Em notícias corriqueiras de guerras em países distantes, por exemplo, seria possível perguntar: apesar de esses fatos ocorrerem mesmo por lá, qual a realidade local que eles representam para o cidadão médio no Brasil? Provavelmente muito pouca, a não ser entre aqueles que sofram alguma influência da variação do dólar e do preço do petróleo. Para a grande maioria, tais notícias a alienam de sua realidade local.
Talvez devesse ser defendida uma regionalização das notícias, então? O poder alienante dessas também não pode ser ignorado. Ao manter um indivíduo plugado nos acontecimentos mais recentes, a mídia o distrai da sua própria existência, que talvez seja a única realidade palpável para ele.
No entanto, poderia ser argumentado que manter-se informado de eventos importantes talvez seja mais relevante do que dar atenção à própria existência. Mas será que eventos importantes ocorrem com tanta freqüência que justifiquem tantas notícias sendo produzidas? Nos últimos 1000 anos, deve ter havido menos de uma dezena de eventos ou situações que provocaram mudanças significativas no modo de vida das vidas, entre os quais podem ser citados o renascimento, a revolução francesa, a expansão marítima, as guerras e a revolução tecnológica do século XX. Apesar disso, jornais e programas de TV diários transmitem bem mais que dez notícias por dia, a maioria das quais cairão no esquecimento em pouco tempo, após terem cumprido sua função de preencher o espaço entre as propagandas dos anunciantes.
A mídia gosta de pensar que seu papel é o de informar o povo sobre fatos verídicos e o povo, simbioticamente, gosta de pensar que, ao assistir ou ler as notícias está se tornando mais bem informado e culto. Mas a real simbiose é outra: o papel principal da mídia é projetar sombras agradáveis para as cavernas platônicas dos indivíduos, salvando-os assim da angústia de contemplar o vazio da própria existência, uma existência sem essência pré-determinada. A mídia fornece a matéria-prima com a qual as pessoas preenchem o vácuo de suas vidas e assim têm assuntos para conversar ou para escrever dissertações polêmicas. A veracidade ou realidade das informações pouco importam para esse propósito, pois vão preencher o vazio da mesma forma.
Jornalistas idealistas poderiam afirmar que o correto, o bom, seria criar mecanismos que garantissem que a mídia projetasse não sombras, mas sim a luz que está fora da caverna e desse suporte à angústia desencadeada. Mas o que garantiria que tais mecanismos conseguiriam distinguir a luz de outras sombras apenas mais convincentes? Essa afirmação idealista também tem como pressuposto que as sombras, as mentiras e a falsidade são ruins a priori, o que talvez não sejam. Ao analisar o que é bom ou ruim, deixa-se o terreno da metafísica, para entrar no campo da Ética.
A falsidade é a cola que mantém toda a sociedade coesa. As pessoas mentem para serem simpáticas e dizerem o que as outras querem ouvir. Mentem sobre suas traições para manterem seus casamentos funcionando. Mentem para si mesmas para manter suas auto-estimas elevadas e esconderem seus egoísmos. Os políticos mentem para dar esperança ao povo e não deixar o risco do país aumentar. Um mundo sem mentiras provavelmente seria um mundo de deprimidos antipáticos em constante guerra civil. Por isso a falsidade é inconscientemente requisitada por todos e necessária para o bem-estar coletivo e, sob esses aspectos, seria então possível concluir que a falsidade é até boa e correta.