A Libertação [Escrito em 17.03.01]
Depois que uma pessoa nasce, cresce sob os paradigmas do ambiente a sua volta e os absorve por inércia. Muito provavelmente esse indivíduo virá a morrer sem sequer ter pensado sobre as próprias convicções durante sua vida, permanecerá inconsciente e sua mente adormecida.
Os paradigmas podem ser de todos os tipos: a crença na vida após a morte, na pecaminosidade de roubar e matar, na existência de “direitos humanos”, na veracidade dos resultados obtidos pelo método científico, na validade da navalha de occam (princípio da simplicidade).
Raramente, um indivíduo pode ter suas convições abaladas, catalisando o processo de libertação, de auto-conscientização. Um cientista poderia perder a fé nos métodos da ciência ao achar, por exemplo, que uma espécie como a humanidade é complexa demais para ter se formado espontaneamente pelas interações entre átomos. Uma pessoa muito religiosa poderia perder a fé num Deus “bondoso” ao verificar a quantidade de “mal” e “injustiça” existente no mundo. O cientista acabaria se apegando a outros paradigmas, tornando-se possivelmente profundamente religioso. O mesmo ocorreria com o religioso... E ambos viveriam adormecidos para sempre. Seus sonos apenas foram ligeiramente perturbados.
No entanto, eventualmente um desses raros indivíduos pode avaliar todos esses conjuntos de crenças (religiões, o método científico, filosofias morais...) e chegar a estranha conclusão que não há nada que indique que um deles seja mais verdadeiro que o outro. Conseqüentemente, não haveria o “certo” e o “errado”; os conceitos de moral e verdade não existem senão como invenção da mente humana. Essa pessoa enfim se libertou de seus paradigmas. Mas o que ocorrerá com ela agora?
Três possibilidades parecem existir:
- Ela pode entrar numa crise existencial, numa depressão, ao se defrontar com o vazio moral, adotando atitudes auto-destrutivas.
- Pode conscientemente seguir um dos conjuntos de crenças; não por fé, pois esta já foi irremediavelmente perdida, mas por querer parecer normal dentro da sociedade.
- Ou então, ela se acostuma com o vazio, buscando se abster de valorizar as coisas.
Curiosamente, os limites entre uma possibilidade e outra são muito tênues, existindo até um ciclo aparente: a total abstenção da valorização levaria, eventualmente, a atitudes destrutivas... Ter a mente acordada é uma situação com a qual é preciso se acostumar aos poucos, sempre buscando “acordar” ainda mais.